sexta-feira, 18 de abril de 2014

Vai

Não adianta fingir. Apesar de estarmos fadados à essa ação na sociedade, no fundo da tua alma tem alguma coisa que te diz: não adianta fingir pra ti mesmo. Tu sabe das tuas fraquezas, daquilo que te limita, impede, bloqueia ou envergonha.

Passava das 6 hrs da manhã e ele já se remexia na cama. Teu corpo já se acostumara com a fatídica rotina de acordar cedo. Virou-se e sentiu as costas tocarem a parede gelada. Bom dia, seu merda. Tomou banho com a intenção de despertar, mas a sensação continuava a mesma. Preguiça. Infinita.

Pega a toalha,
Seca o cabelo,
Coça a barba e pensa nela.

Enxuga o corpo,
Se vê no espelho,
Escolhe a roupa e pensa nela.

Come um pão,
Bebe café,
Pega suas coisas e pensa nela.

Corre,
Trabalha,
Estuda.

E continua pensando nela.

Ele lê um livro pra se distrair e acaba encontrando uma personagem completamente diferente dela. Diminui a graça. Mas sabe que precisa de conteúdo, assim prossegue a leitura. Coça a barba com mais frequência do que o normal. Estica o olhar com mais frequência do que o normal. Se vira na cadeira com mais frequência do que o normal.

Escreve no caderno,
Anota na agenda,
Olha pra cima e pensa nela.

Os devaneios vêm e vão numa velocidade impressionante. Em 30 segundos lembra de como a conheceu, de uma conversa, de seu olhar dizendo uma coisa enquanto a boca dizia outra. Se lembra da grande vitória e de seus planos para o futuro. Não adianta fingir, ela te fez sentir algo diferente. E ele negou isso insistentemente nos últimos meses. Agora tudo pode ter mudado. Teu não instinto pode ter te traído. Aquela conversa pode ter sido a última e os rumos se dividiriam numa bifurcação inesperada. Será que ainda há volta?

Ele se aproxima, com confiança e está prestes a saber se os próximos meses serão melhores. Seja um herói, pelo menos uma vez. É agora.

Desencosta da parede, o despertador toca. Vai fazer algo pra ser feliz hoje? Ou vai arranjar outra desculpa? Bom dia, seu merda.

@Gui_Lorenz

sexta-feira, 28 de março de 2014

São Muitos Enredos

Infinitamente distorcida segue a nossa visão de felicidade. Tão abstrato é o conceito como os sonhos que nos fazem acreditar numa sutil dose de perfeição nas nossas vidas. Digo dose pois não quero pedir demais, somente algumas vitórias que me façam seguir caminhando e lutando contra aquilo que tenta me derrubar.

Haverá um dia em que tu não vai simplesmente abaixar a cabeça, sair andando e esquecer. Um dia que a mudança chegará desapercebida e vai transformar teu marasmo sentimental em uma enorme onda de atitude. E tudo e todos que tentaram te derrubar serão levados pela verdadeira maré viva (SILVEIRA, 2013).

Pode parecer bem simples julgar aquilo que o outro faz, pensa e sente. Mas é muita prepotência crer que sabe a resposta pra vida, pro universo e tudo mais. Cada um é cada um. Temos nossas fraquezas maiores e menores. Nenhuma pode ser ignorada ou aceitada. Vai, luta! Nessa vida, são muitos enredos. Enrolados, embriagados como nós. Viva o seu intensamente, antes que seja tarde demais.

@Gui_Lorenz

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Ponto Fora Da Curva

A vida está muito distante de ser uma reta, com caminhos planejados e traçados nos mínimos detalhes, algo linear que te ofereça segurança suficiente pra afirmar como será o amanhã. Nessa longa estrada, as coisas mudam num piscar de olhos. O que era, pode não ser mais. O que se foi, pode não voltar atrás. Ontem é história. Amanhã é mistério.

E as traiçoeiras curvas são constantes por aqui, umas abertas como uma nova chance e tantas outras fechadas como os momentos difíceis. Reduza a marcha da vida, mesmo que por um instante, para agradecer por aquilo que te faz melhor.

Contudo, preste atenção em todas as curvas, pois haverá um dia em que um ponto fora dela vai te fazer parar. Vai te desconcentrar e muitas vezes não terá como olhar pelo retrovisor para avaliar tudo o que se foi. Esse ponto pode (e provavelmente vá) atrair outras pessoas, mas nunca desista de fazer o seu melhor para alcançá-lo. Se o ponto for o mais estranho e espetacular já conhecido, saiba que a vida te deu uma chance. Agora lute por essa exceção. Vírgulas são necessárias, até quem sabe o ponto ser tudo aquilo que lhe faltava.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O Bem Maior

Foi-se o tempo em que este autor escrevia quase que semanalmente nesse (não mais) periódico site. Este ano foi de grandes mudanças, amadurecimento forçado por algumas situações e espontâneo por inúmeras outras. Nunca havia pensado em como sair da zona de conforto seria tão problemático e paradoxal, mas muitas vezes foi algo bom. Ir para novos lugares, conhecer novas pessoas, enfim pensar fora da caixinha.

Nunca 365 dias foram tão puxados, tão ríspidos e ao mesmo tempo agradáveis. Nunca havia passado mais tempo fora de casa do que dentro dela. Nunca havia visitado tanto as estações da CPTM. Nunca havia trocado tanto de lugar, estudado tantas matérias ou sido submetido às mais improváveis situações. Muito menos havia substituído o sabor do Frapuccino da Starbucks. Mas tudo isso aconteceu. Eu nunca havia entendido o valor das coisas boas. Essa última, talvez não entenda até hoje e provavelmente nunca entenderei. Mas quem disse que precisamos entender tudo para sermos o que somos?

Hoje pensei em como a vida passa rápido, como as coisas mudam enquanto que outras permanecem inalteráveis. 2013: um ano que me mostrou o bem maior. O que? O bem maior não é a soma de todas as coisas boas, é mais uma mágica que eu acredito. E sei que outros também acreditam nele. É um pouco de pensamento, um pouco de reflexão e muito de ação. É um momento, que quando nada parecer fazer sentido, algo aparece. E seja lá o que (ou quem) represente isso, não deixe escapar. Às vezes, o bem maior só pode acontecer quando dizemos sim. Sim pra aquilo que te faz bem sem requerer nenhum tipo de explicação.

Entre um ano e outro é bom achar um vácuo pra ver o que deu certo e o que posso melhorar. Coloque-se mais na pele do outro. Veja o que você pode fazer pra tornar as coisas menos difíceis. Eu tive sorte esse ano e posso dizer que estou bem. Mas não penso em desistir tão cedo de alcançar meu bem maior.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Das Histórias Que Não Foram Vividas

   Estava anoitecendo. Os últimos raios de sol despediam-se no horizonte e, aos poucos, davam lugar à escuridão parcial que era apenas interrompida por alguns pontos brilhantes no céu. Com passos curtos e arrastados, um senhor deslocava-se para perto da janela de seu apartamento. Respirou fundo, olhou para frente e não conseguiu seguras as lágrimas.

   Não havia uma noite em que não parava para pensar em como sua vida poderia ter sido diferente. Era filho único, teve pouco contato com os primos e tios. Não casou-se nenhuma vez. Mas apaixonou-se algumas. Sempre acreditando que seria diferente, que encontraria um amor para viver pelo resto de sua vida, como nos filmes. Como nos livros. Como nos comerciais de Natal. Contudo, não foi assim para ele.

   Cada desilusão era uma pontada no peito daquele homem que sofreu por sentir demais. Agora, estava velho e sentia-se incapaz de ser feliz. Lamentava as chances que perdeu. Na verdade, nem ele sabia se tivera tido uma oportunidade concreta de mudar o seu destino para melhor. Era tímido e introvertido; confortava-se em apenas existir. Nunca ousou, pois tinha medo de perder aquilo que na verdade nunca fora seu.

   Os finos cabelos brancos, as dobras na pele, a dificuldade em andar. Tudo demonstrava que ele se resumia a um pobre resto de esperança. Deu um gole em seu uísque e pensou como queria voltar no tempo. Não teve esposa. Nem filhos. Muito menos alegria. Os poucos amigos feitos já haviam desaparecido há tempos. Hoje, ele morre lentamente e possui apenas uma amarga lembrança: das histórias que não foram vividas.

@Gui_Lorenz

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Zero

Ninguém tem tudo o que deseja. Nós, meros seres humanos frente à imensidão do universo, possuímos essa peculiar e desastrosa característica: desejar mais do que podemos alcançar. E essa é a causa de tanto sofrimento, tanta revolta, desilusão e decepção. Somos o que podemos ser, não o que queremos ser.

Nossa preocupação em parecer algo maior faz com que a essência do ser humano (a ação, não a espécie) fique abandonada em algum canto do coração. Todos temos algo a esconder, um ponto fraco que nos faz desmoronar. E pensando em nossos vícios e virtudes, admiti a hipótese do saldo.

Vivemos em um estado de estabilidade, no qual coisas boas e coisas ruins acontecem todos os dias. Por vez ou outra, acontecem mais coisas boas do que ruins ou vice-versa. Mas isso é passageiro. Existe um ponto de equilíbrio entre tudo isso, enfim, como a lei da ação-reação, aquilo que um dia acontece de pior, no outro acontece de melhor. Uma força além da minha compreensão que não te deixa ser puxado para um extremo ou outro. Sendo assim, o zero é uma resposta para nós. Pelo menos uma hipótese. Bem forte, ao meu ver. Tudo de positivo terá um contrapeso negativo.

As emoções, razões, resultados se balanceiam de modo que, ao final, encontrem-se no saldo zero. Devemos aceitar essa condição, esse meio termo que nos deixa tão inseguros? Não sei. Mas há boas razões para acreditar que tal condição existe. Entre o otimismo e o pessimismo, fico com o realismo de que as coisas vêm e vão numa dinâmica que altera o rumo das nossas vidas diariamente. A vida tem de prosseguir e talvez seja melhor mantermos a crença de que, ao final de tudo, teremos bons motivos para sorrir. Alguns a mais do que para lamentar.

@Gui_Lorenz

terça-feira, 21 de maio de 2013

Conto De Uma Noite De Verão

"Não havia razão para que ele passasse mais uma noite sozinho. Não havia porque ela ficar triste em um sábado à noite"...

O dia amanheceu em Cardiff de um jeito diferente. O frio e a neblina deram lugar a sutis raios de sol que, combinados com a brisa da cidade, faziam parecer que algo especial iria acontecer.

Harry olhou para o despertador antigo que repousava sobre o criado-mudo e viu que já passavam das onze horas. Levantou-se, ainda atordoado devido o sono intenso e desceu para comer algo. Seus pais não estavam em casa, mas sempre deixavam comida para o filho. Dessa vez não foi diferente e sobre o balcão de granito esperava um delicioso croissant. O garoto sorriu, pegou seu café e foi à varanda ver o céu diferente que se revelava naquele momento.

Durante a tarde ele saiu sem destino. Foi caminhar pelas ruas largas do bairro e por lá encontrou seus amigos Owen e Cleaf. Os três se conheciam há pelo menos três anos e costumavam sair para beber e jogar conversa fora. Mais tarde eles repetiriam a tradição: era noite do Baile Anual de Verão do Colégio Tradford. Harry planejara minuciosamente os horários para que não houvesse contratempos. E assim aconteceu, pois ficou cerca de quatro horas com os amigos conversando sobre tudo e sobre nada. São raras as pessoas com quem falamos tão naturalmente. É algo extremamente agradável.

Por volta das 5 horas, Harry voltou para casa e encontrou os pais na cozinha. Cumprimentou-os e seguiu para o banho, pois dali pouco tempo ele buscaria Emily que morava a uns 4 km de Cardiff. Emily. A guria que dança. 16 anos, pele clara, cabelos negros como a noite. Olhos que faziam parecer que as estrelas não brilhavam. Certo temo depois e lá estava o garoto com os cabelos molhados e milimetricamente desalinhados, após o banho e apenas de cueca esperando uma luz para que se lembrasse aonde ele havia deixado sua jaqueta de couro. Pela janela, viu o sol começar a se pôr e as árvores balançando suavemente. Provavelmente estava mais frio agora do que quando chegara em casa, ele pensou.

Continuou se vestindo. Colocou sua calça escura, um par de meias e pôs os sapatos muito bem engraxados. Tudo isso dava um ar muito vintage à Harry, que gostava de parecer assim. E também gostava da palavra, pois soa muito bem. Caminhou até o compartimento de perfumes e escolheu Polo 4: o melhor para a ocasião. Seguiram-se 4 borrifadas e a partir daquele momento a festa tinha começado. Finalmente encontrou a jaqueta, guardada com as coisas de seu pai. Sorriu e voltou para o quarto onde vestiu a camisa branca de finos detalhes prateados da Burberry. Arrumou o cabelo recém-cortado e o deixou levantado na frente, como sempre fazia. Pôs a jaqueta e percebeu que tudo estava perfeito até então. Mas faltava algo para aquela noite ser mais que perfeita...

Na saída, pegou celular, carteira e encontrou seu pai segurando a chave do carro. Harry completou 18 anos há uma semana, mas já dirigia desde os 16. Abraçou o pai, recebeu a chave e caminhou até o Triumph TR6 vermelho que o levaria até a casa de Emily. Entrou no carro, deu a partida e ligou o rádio. Eram os primeiros acordes de Miss Atomic Bomb. The Killers. A noite caiu e trouxe um vento agradável e mais forte. A estrada estava vazia praticamente, Harry pôde olhar a paisagem com tranquilidade. Por fora ouvia-se o ronco do motor. Por dentro,
                          "Miss Atomic Bomb, you're gonna miss me when I'm gone
                                                           you're gonna miss me when I'm gone
                                                                                                       Miss Atomic Bomb"

O relógio marcava 19:15 e as estrelas apareciam no céu escuro. Harry estacionou o carro em frente à casa dela, pegou o celular e pensou em ligar. Mas desistiu. Não de vê-la, só de ligar. Preferiu sair e ir até a porta tocar a campainha. Queria fazer à moda antiga. Cerca de dez passos e lá estava Harry encarando a porta muito bem pintada de branco e certificando se o cabelo continuava no lugar. Tudo checado e ele apertou a campainha. Do lado de dentro um home de cabelos levemente grisalhos atendeu, cumprimentou o garoto e disse que a filha já estava descendo. E assim aconteceu. Emily descia a escada ao mesmo tempo em que Harry perdia o ar.

Ela usava um vestido preto cheio de rendas e um pouco acima do joelho. O contraste era perfeito entre a clareza delicada de sua pele e a cor do vestido. O penteado impecável deixou à mostra os traços do rosto. Novamente via-se o tal contraste entre as bochechas rosadas e os olhos negros. Talvez agora você entenda porque aquele olhar fazia parecer que as estrelas não brilhavam. Trazia o sorriso mais lindo que Harry já tinha visto e, devido ao salto, ficavam quase da mesma altura. Um tímido "olá" e um beijo no rosto fizeram o garoto perceber que tudo aquilo era real. Antes de partirem, um conselho do pai de Emily: -"Juízo. Divirtam-se".

O caminho dessa vez era mais curto: cerca de dois quilômetros. Nem deu tempo para conversarem muito. No rádio, uma canção do Creedence embalava a viagem. Ironicamente, se contradizia ao tempo lá fora.
"I wanna know, have you ever seen the rain?"

-"O céu está bonito hoje" - ela disse.
-"Não tanto quanto você" -ele respondeu.
E ambos começaram a rir pelo simples fato dessa cantada sem querer. Nenhuma explicação isso requer.

De longe já avistavam as luzes acesas no Colégio Tradford. Menos de dez minutos e Harry já estava estacionando o Triumph do pai. Ele saiu e deu a volta para ajudá-la a descer, pois o estacionamento tinha solo coberto por aquelas pequenas pedras cinzas. E como Emily estava de salto, bem você consegue imaginar o que poderia ter acontecido. Saíram juntos de braços dados e ouviram o clique do trancar das portas. 

O prédio do Colégio era um espetáculo a parte. A fachada muito bem conservada e as triunfais colunas romanas da entrada proporcionavam ainda mais estilo àquela noite. Sob a luz do luar, trocaram sorrisos e caminharam rumo ao salão principal. Lá estavam muitos de seus amigos. Harry foi encontrar os bons amigos do Colégio, dentre eles Cleaf e o já um pouco embriagado Owen. Duas garrafas de cerveja estavam vazias ao seu lado e uma terceira, pela metade. Do outro lado Emily encontrou outras gurias. Havia cerca de dez. Duas delas já se entreolhavam de modo raivoso pois estavam com vestidos rosas iguaizinhos. Intrigas à parte, todas saíram juntas. Devem ter ido tirar fotos no banheiro.

Apesar da ótima decoração cujo tema era o fundo do mar e da banda que agora tocava um clássico dos Smiths, estava faltando algo mais pra animar de vez a noite. Agora peço uma licença poética para fazer um paralelo com a vida de todos nós: sempre há aquele amigo comediante por natureza e que, quando bebe, fica ainda melhor. Pois bem, Jake chegou contando a piada do zelador latino com uma garrafa quase terminada de tequila. Todos já sabiam o final da anedota e, portanto, logo perguntaram:

-"Por que você só trouxe isso aí?" - apontando para a garrafa.
-"De onde veio essa, tem muito mais!" - ele respondeu empolgado.

Foi o suficiente para euforia geral dos jovens. Jake fez sinal para que o seguissem e todos foram. Menos Harry. Apesar da vontade de beber, ele precisava reencontrar Emily. Enquanto esperava pela garota, apreciou o som da banda que tocava uma bela versão de Penny Lane, dos Beatles. Quando se aproximava o refrão, duas mãos cobriram seus olhos. Bastou uma inspiração para reconhecer o perfume da guria que dança. Virou-se e começaram a dançar de um jeito bem esquisito - nenhum deles levava jeito para a coisa. Passos tortos, giros descompassados e risos descontrolados resumem tudo o que houve até o fim da música. 

Depois do espetáculo, ele contou à ela sobre a chegada de Jake e suas acompanhantes alcoólicas. Emily sorriu e sem pensar duas vezes arrastou o garoto rumo ao estacionamento. Não era difícil reconhecer onde estava o resto da turma. A uns 30 metros  encostados numa caminhonete preta com a cabine aberta. Dentro, mais de dez variedades de destilados. Apesar do clima contagiante, o frio aumentara consideravelmente. Ao perceber, Harry tirou sua jaqueta e colocou nos ombros de Emily.

-"Não precisa!", ela disse
-"Faço questão", ele retrucou.
-"Eu tenho sorte", ela falou bem baixinho.
-"O que?"
-"Nada, obrigada.". E sorriu.

Ela se aproximou e pegou uma recém-aberta tequila dourada. Deram a volta e Harry ofereceu o primeiro gole a ela.

-"Saúde" - e deu um rápido gole.

Em seguida foi a vez dela:

-"Que fraquinho, você. Aprende a beber comigo", ela ironizou e Harry observou. A guria que dança, de pele clara como o dia, de cabelos negros como a noite e dos olhos mais brilhantes do que as estrelas manteve a garrafa na boca durante quase 7 segundos. Inevitavelmente, duas gotas escorriam e tangenciavam a curva de seus lábios.

-"Falou demais, nem conseguiu beber sem deixar escapar" - ele disse.
-" Me sujei então? Merda!" - ela completou
-"Sem problema, deixa que eu limpo" - respondeu Harry.

Dois passos. Dois olhares. Duas bocas se encontraram. 

Aquele era o momento. Nada poderia atrapalhar. Sob a luz do luar e o brilho das estrelas, perto das melhores pessoas que poderiam ter conhecido. Dois corações tornariam-se um só pelos próximos minutos. Dois é melhor do que um? Talvez. Cada sentido de Harry se aguçava: ele tinha o olfato entorpecido pelo perfume de Emily. A visão propositalmente encoberta. O tato que sentia cada detalhe daquela guria. A audição interrompida pelo barulho ali perto. E o paladar? O melhor do mundo. Uma mistura de Emily e tequila que o deixava perdido. Naquele momento ele poderia jurar por Deus e dizer: "EU ME SINTO INFINITO".

Algum tempo depois eles voltaram à realidade. Restabeleceram a aparência e perceberam que não havia mais ninguém ao redor. Levaram as bebidas para dentro, pois quiseram deixá-los sozinhos. 

-"Quero dançar", Emily falou e partiu rumo ao salão.

Harry ainda estava  atordoado e simplesmente balançou a cabeça positivamente e seguiu-a. Uma corrida leve para alcançá-la e oferecer apoio.Deram os braços, mas não trocaram nenhuma palavra. Lá dentro encontraram os amigos reunidos numa mesa, ainda bebendo e alguns comentando o acontecido. Emily se aproximou, deu um gole curto na garrafa mais próxima e puxou Harry que, por sua vez, puxou os demais para a pista. Como a maioria já tinha certa dosagem de álcool no corpo, começaram a bailar de um jeito muito engraçado. No meio de toda a situação, ele parou e pensou em como aquele sábado ficaria para a história.

Novamente abro espaço para uma explicação: quantas vezes me referi à Emily como "a guria que dança"? Algumas. Porém também disse que ela não levava jeito nenhum para a dança. Como assim, escritor? A guria que dança, dança aos olhos de Harry. Anda suavemente como em um Ballet  Qualquer coisa que faria, significaria música para os ouvidos do garoto e dança para seus olhos. E assim aconteceu durante o resto da noite. Risos, passos estranhos, goles curtos e longos e mais momentos de sensação infinita. Passava da meia-noite quando Harry e Emily despediram-se dos demais presentes. Cada um do seu jeito, como deve ser.

Pela terceira vez caminharam lado a lado naquela noite. Dessa vez, ela com a jaqueta dele. Ele com os sapatos dela nas mãos. Emily ficara menor e ainda mais fofa no tamanho normal. Fizeram o trajeto mais longo até o carro, para evitar tais pedrinhas que antes fariam Emily se desequilibrar e  agora poderiam machucas seus delicados pés. Ao melhor estilo cavalheiro, ele abriu a porta do passageiro, ajudou-a a entrar e aí sim seguiu para o outro lado. Deu a partida e foi pelo mesmo caminho da ida, mas no sentido contrário. Conversaram um pouco sobre tudo. Naquele momento, qualquer coisa era tudo para ambos. Era possível ver a Lua pelo vidro do Triumph. Majestosa, rodeada de pequenos pontos brilhantes. 

Harry resolveu ligar o rádio. Coincidências à parte, novamente o som era The Killers. Dessa vez, Runaways:

"We got engaged on a Friday night,
I swore on the head of our unborn child
                                                              That I could take care of three of us"...

Certos momentos apresentam uma magia inigualável. Magia ímpar, daquelas que nem Hermione Granger seria capaz de reproduzir. Destino, sorte ou atitude. Seja lá o que isso for, é a melhor sensação do mundo. Enfim, a rua silenciosa opunha-se aos dedos tintilantes de Harry e Emily. Os dele no volante. Os dela no canto do banco. Ambos embalados pela ótima canção.

A última curva antes da casa da guria aproximava-se. Harry fez questão de contornar vagarosamente para poder passar mais alguns segundos ao lado dela. Emily recolocou os saltos e ao perceber o desligar do motor, tirou a jaqueta e devolveu-a. Harry precisava sentir-se infinito uma vez mais. Nunca antes a vida tinha tanto sentido quanto agora. Pela última vez naquela noite, Harry passou os braços pelos ombros de Emily e beijou-a como se não houvesse amanhã. Todas as sensações se repetiram. Tudo era como ela planejou durante a tarde. Emily tinha tudo aquilo que ele sempre procurou. Emily. A guria que dança.

-"Preciso ir", ela disse.
-"Tudo bem. Boa noite, guria da tequila".
-"Boa noite, fraquinho".

E bateu a porta do carro. Caminhou até em casa e Harry observou com atenção, respirou fundo e deu a partida. Nunca tinha percebido como Cardiff era bonita. Talvez tão bela quanto Emily. Uma beleza diferente. Ou então ele ainda estava perdido pela mágica daquela noite.

"Não havia razão para ele não ter alguém ao seu lado. Não havia porque ela parar de sorrir". FIM

@Gui_Lorenz